domingo, 9 de março de 2014
sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
* carmina
Nas mesas de bares imundos cheios de mentes tão obscuras quanto vazias que aspiram a chegada do fim, há poesia. No fim da rua, virando a esquina, ao lado do lixo, cheirando à morte, sem expectativa, há poesia.
- Ah, a poesia é bonita. Dama imaculada de belos cabelos com toque suave e som de chuva. A poesia é limpa, livre, leve. Alheia à podridão do vasto mundo pecaminoso onde os homens se deitam.
Não, meu bem. A poesia também é triste. Mulher ingrata, que move o tempo. Seduz os homens de bem, e condena os homens de mal. Vil, como o fundo o poço. O mais profundo andar do mundo. A poesia também é escura. Amante dos amargos, dos infelizes. Dos que esperam o que não volta. Dos embriagados e perdidos. O que mata, e faz viver.
- Ah, a poesia é bonita. Dama imaculada de belos cabelos com toque suave e som de chuva. A poesia é limpa, livre, leve. Alheia à podridão do vasto mundo pecaminoso onde os homens se deitam.
Não, meu bem. A poesia também é triste. Mulher ingrata, que move o tempo. Seduz os homens de bem, e condena os homens de mal. Vil, como o fundo o poço. O mais profundo andar do mundo. A poesia também é escura. Amante dos amargos, dos infelizes. Dos que esperam o que não volta. Dos embriagados e perdidos. O que mata, e faz viver.
Elisama Oliveira
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
10-equilíbrio
Caminhou até o telefone tentando não pensar na besteira que aquilo significava. Colocou o cigarro nos lábios enquanto usava as mãos para procurar a agenda,encontrou, discou. Três toques:
- Alô?
- Onde está Edgar? - Rute questionou, tentando não parecer desesperada.
- Está comigo, é claro. Tomando café. Por quê?
- Não seja estúpida. Mande-o vir pra casa.
- Ele não tem casa, Rute.
- Sim, ele tem. E é aqui. O que ele está fazendo aí, Lúcia? Você não se cansa de atormentá-lo?
- Não seja ridícula. E não finja que se importa com o que ele faz. Ele vai embora quando quiser, mona amour.
Rute desligou. De fato estava sendo ridícula. Mas não, de fato,não se importava. Acendeu outro cigarro e abriu uma cerveja. Ficou ali, sentada no chão, não pensando em nada, por quase uma hora. Depois começou a imaginar como seria, ver o céu de uma montanha bem alta. Devia ser lindo. Mas, se era, não fazia diferença. Talvez, quando chegasse lá só importasse o abismo à frente. É lá que um demônio deveria viver, no abismo. Ela achou que riria com esse pensamento. Mas não riu. Que vaidade se comparar à um demônio. Sentiu um desprezo tão grande e quis chorar. Então o telefone tocou.
- Alô.
- Por quê não sai um pouco de casa?
- Por que você não volta pra casa?
- Lúcia precisava conversar.
- Não. Ela precisava transar com alguém.
- Talvez eu transe com ela.
- Que seja, Edgar. Mas volte pra casa.
A risada dele foi alta o bastante pra que Rute distanciasse o telefone do ouvido. Era um bom som a se ouvir.
- Ouça, Rute, não seja ruim com ela. Estamos todos sentindo falta de Ana. Você não está sofrendo mais, ou menos do que Lúcia.
Rute desligou. É claro que estava. Acendeu outro cigarro e se deitou na varanda, encarando o teto enquanto fumava. O gato preto que Edgar havia lhe dado se enroscou entre as suas pernas e ficou ali. Ela o observou pegar no sono rapidamente, e viu sua respiração diminuir o ritmo. Quase uma exercício de paz. Naquele momento nada mais importava. E ela desabou no mais profundo dos desesperos, procurando algo no que se segurar. Chorou, expulsando de si os demônios. Chamou por Ana mil vezes, até que sua voz não passava de um som vago no vento, rasgando a monotonia do tempo. Era disso que precisava: vazar. E, e x t r a v a z. Lavar de um todo a dor que ali se deixou. Se sentou, e se obrigou a aceitar que Ana não voltaria, que não se podia mais viver do avesso. Ela ainda estava viva, e precisava acreditar nisso. Lavou o rosto devagar, pressionou a toalha sobre ele sem esfregar, e se encarou no espelho. Ela era mesmo bonita, como diziam. Mas haviam marcas de infelicidade por toda parte. Isso precisava acabar. E acabaria.
Já estava mesmo na hora de se recompor.
sábado, 16 de novembro de 2013
Rute
(...)
Da ponta do cigarro um filete de fumaça fugia rumo ao desconhecido. Ela encarava algo pela janela.Talvez fosse alguém,talvez fosse o tempo, talvez não fosse nada. O café estava sobre a mesa, flertando como uma mulher apaixonada. Bowie sussurrava que o amor estava perdido - " You refuse to talk but you think like mad ...". E ele tinha razão.
Não havia mais o que procurar na geladeira. Não havia cartas na caixa de correio, tão pouco vontade de que houvesse. Rute estava ali, padecendo. Procurando um bom motivo pra continuar com essa loucura. Viver. E nem sequer encontrava motivos, que dirá, bons motivos. Um envólucro tomou conta dos planos, e pretérito. O relógio parecia amaldiçoar cada instante que antecedia sua respiração. Mas ali estava ela, viva. E satisfeita com essa ideia. Entre uma tragada e outra o mundo girava sem importância. Como se a morte não fosse uma amiga que visita sem prévio aviso. Seria bem vinda quando viesse. E mesmo sob a falta de motivos que fizessem aquelas barulhentas batidas cardíacas serem menos desprezíveis, ela ainda estava ali. Então já passadas algumas horas entre cigarros, flertes pela janela, cafés requentados, o som de toques na porta trouxe a realidade de volta como um tapa no rosto.
- Ah, aí está você. Pensei que estivesse morta. - Não seria má ideia. Mas até mesmo ele sabia que Rute era egoísta demais para morrer. Isso era entregar-se. Algo que ela desprezava, mais que a si mesma.
- Você não tem nada melhor pra fazer,Edgar? Está um dia bonito.- Ela deu as costas para ele enquanto caminhava de volta à cozinha
- Senti sua falta. Ana se foi. Preciso de um lugar pra ficar. E você me ama. - E amava mesmo. Mas era o amor sem posse, sem necessidade, sem vontade, quase sem vida, amor de quem anseia por cura.
- Ela se foi ... Nós já sabíamos que isso iria acontecer, querido. Eu sinto muito.
E sentia. Mais café foi feito. E mais cigarros foram comprados. No rádio alguém sussurrava algo sobre um outro amor perdido. Talvez o amor fosse só isso, uma história cantada. Uma vítima querida, cheia de graça, que sempre morre no final, do jeito mais bonito.
- Você disse que iria parar de fumar - disse enquanto a observava. E Rute parecia flutuar com aquele vestido florido bem apertado na cintura,que dava um ar mais aconchegante à sua vida do que realmente era. De longe se veria sua indiferença fingida. Era um belo vestido,pensou Edgar.
Ela o olhou cinicamente terna. Algo no seu rosto pareceu ser uma ameaça de sorriso. Daqueles bem tristes, e perversos. Rute se levantou, colocou a xícara sobre a mesa. Tragou. Apagou o cigarro. Aproximou seu rosto do dele, frente a frente. E soltou a fumaça, bem devagar, como quem soprava a vida.
- Pronto, querido, parei. - ia sorrir, mas não sorriu. Se viu dentro dos olhos de Edgar, e não havia nada ali de que se orgulhar. Ele era assim, o espelho que refletia a podridão dentro dela.
Edgar a abraçou. E como um punhal, a matou. Porque ela morria toda vez que lhe lhe dava amor.
Elisama Oliveira em, "Eu quis dizer,amor".
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Carta Pra Ela
Ana,
Que a gente faz quando o tempo leva uma vida toda pra chegar? Este tempo que é de chuva, que me prometeu. Não há nada a se fazer. E tu tens me dado tão poucos minutos no telefone, Ana. Tenho ficado perdido nessa cidade com nome de santo. E só o nome. Mas todos aqui parecem estar sempre chorando. Todos são tão sós, mesmo em mesas de bares cheias de almas. Te mando uma foto depois, criança. Aqui é sujo como em nenhum lugar. E nossos caminhos parecem sempre tortos. Eu me sinto triste só de olhar os outros sorrisos. Porque os sorrisos estão sangrando.
De um jeito sóbrio nascem os dias. Sob escombros de uma guerra perdida. Talvez não haja mesmo com o que se perturbar. Mas tudo perturba. Tudo parece trair o escuro. Tudo é corrompido. E tudo, ao fim do ciclo, parte.
Preciso ir embora, criança. Mas antes devo te dizer que as chaves não estarão debaixo do tapete dessa vez.
É tempo de seca. E eu sinto que mais ao sul o inverno chegou mais sereno. Talvez eu vá para lá. Te encontro na estrada, quem sabe..
Mas, sabe criança, em seu devido tempo, tudo renasce. Assim, não sucessivamente. Tudo. Ao tempo que lhe faz mais bonito.
Carregando a saudade no colo,
Edgar.
sábado, 11 de maio de 2013
Um delírio
Em um desses mil tesouros perdidos estão guardadas todas aquelas cartas de quem não soube não ter amor.
Foi de longe que avistei,num cantinho, uma dádiva que me recusei a cumprimentar. Olhei, sorri silenciosa. Cobicei por três segundos até que o som da avenida voltou feito um golpe. Eu não tinha tempo pra aquilo.
É apenas um efeito dessa guerra em que me encontro. Me impondo limites, me dizendo o que não fazer, ser, estar. Apesar das mãos tão sóbrias, sinto como se cada flor que eu toco adoecesse.
Oz está em ruínas, e nós somos os culpados pelas estradas encharcadas de cravos despenteados. Um breve declínio. Quatro anos e a mesma doença. Essa que nos obriga a atropelar os dias.
Tenho envelhecido três quartos de tempo à cada colheita. Isso, à muito, não me traz orgulho.
Quero emprestado teus defeitos, tuas dores, desentendimentos que eu entendo, só pra ter certeza de que estou indo na direção errada.
Construí uma casa com muros tão altos que me esqueci do quanto odeio estar cercada. Um casa, que era nossa, e toda nossa no jeito de existir. Existia por necessidade. A mesma que eu sinto pela vida. A mesma que a vida sente por você.
Me traz de volta meus delírios, me dá no fim da tarde aquela ilusão, bem docinha. Me engana de novo, se é assim que chamam a eternidade.Volta, criança. Porque eu não quero ser adulto. Não quero ter resposta pra tudo. Não quero isto que estou querendo. Não querer:nada.
Elisama Oliveira
Foi de longe que avistei,num cantinho, uma dádiva que me recusei a cumprimentar. Olhei, sorri silenciosa. Cobicei por três segundos até que o som da avenida voltou feito um golpe. Eu não tinha tempo pra aquilo.
É apenas um efeito dessa guerra em que me encontro. Me impondo limites, me dizendo o que não fazer, ser, estar. Apesar das mãos tão sóbrias, sinto como se cada flor que eu toco adoecesse.
Oz está em ruínas, e nós somos os culpados pelas estradas encharcadas de cravos despenteados. Um breve declínio. Quatro anos e a mesma doença. Essa que nos obriga a atropelar os dias.
Tenho envelhecido três quartos de tempo à cada colheita. Isso, à muito, não me traz orgulho.
Quero emprestado teus defeitos, tuas dores, desentendimentos que eu entendo, só pra ter certeza de que estou indo na direção errada.
Construí uma casa com muros tão altos que me esqueci do quanto odeio estar cercada. Um casa, que era nossa, e toda nossa no jeito de existir. Existia por necessidade. A mesma que eu sinto pela vida. A mesma que a vida sente por você.
Me traz de volta meus delírios, me dá no fim da tarde aquela ilusão, bem docinha. Me engana de novo, se é assim que chamam a eternidade.Volta, criança. Porque eu não quero ser adulto. Não quero ter resposta pra tudo. Não quero isto que estou querendo. Não querer:nada.
Elisama Oliveira
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