terça-feira, 15 de abril de 2014

The Catcher in the Rye

Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto - quer dizer, ninguém grande - a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. 


- Salinger

Dopamina

eu não via a chuva
que nele chovia.

e era quente,
e o cheiro
da morte
da mulher
do abismo,
recente.

eu não via o fogo
que nele ardia.

molhava
todo o toque
e o gosto
espalhava
queria curar-se
e era cura
e curou-nos.


Depois, só.




Elisama Oliveira

segunda-feira, 17 de março de 2014

* incertain

 nous vivons seul 

A gente vive baixinho, admirando os velhos costumes, pendurando os bons tempos na parede. Fazendo do tempo um amigo bom que visita pra fazer rir, fazer chorar, lembrar viver. A gente vive escondido, nunca alheio ao espaço entre o medo e a felicidade. Destratando os corruptos amantes que fizeram do obscuro um lar. Abraçando as virgens desencontradas nos leitos abandonados. A gente nunca grita, a gente nunca foge, a gente nunca deixa fugir. Buscando o que não tem nome, sorrindo pra o desconhecido, vivendo o desencontro. Lutando uma guerra inexistente, revolucionando um mundo morto. A gente não tem coração, mas bate, e bate forte, ansiando a vida. A gente ama e não tem coração, porque assim não morre. A gente nunca morre. Mas deixa de existir, todo fim de tarde. Sem pestanejar. E o tempo nos cura. Mesmo que a gente não esteja doente. Deixa de existir pra gostar de café, pra nunca mais ver a lua, pra nunca mais chegar tarde, pra gostar menos de "gente", e não ter mais certeza de nada, e não querer mais a paz, e buscar capital, e fazer desse capital a paz. Mas o capital nunca é o bastante, daí que a paz nunca vem. A gente vive baixinho, ouvindo o amor cantar.



Elisama Oliveira  em  "Quando eu vivia nos desfiladeiros"









sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

* carmina

Nas mesas de bares imundos cheios de mentes tão obscuras quanto vazias que aspiram a chegada do fim, há poesia. No fim da rua, virando a esquina, ao lado do lixo, cheirando à morte, sem expectativa, há poesia.

- Ah, a poesia é bonita. Dama imaculada de belos cabelos com toque suave e som de chuva. A poesia é limpa, livre, leve. Alheia à podridão do vasto mundo pecaminoso onde os homens se deitam.

Não, meu bem. A poesia também é triste. Mulher ingrata, que move o tempo. Seduz os homens de bem, e condena os homens de mal. Vil, como o fundo o poço. O mais profundo andar do mundo. A poesia também é escura. Amante dos amargos, dos infelizes. Dos que esperam o que não volta. Dos embriagados e perdidos. O que mata, e faz viver.



Elisama Oliveira

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

10-equilíbrio




Caminhou até o telefone tentando não pensar na besteira que aquilo significava. Colocou o cigarro nos lábios enquanto usava as mãos para procurar a agenda,encontrou, discou. Três toques:

- Alô?

- Onde está Edgar? - Rute questionou, tentando não parecer desesperada.

- Está comigo, é claro. Tomando café. Por quê?

- Não seja estúpida. Mande-o vir pra casa.

- Ele não tem casa, Rute.

- Sim, ele tem. E é aqui. O que ele está fazendo aí, Lúcia? Você não se cansa de atormentá-lo?

- Não seja ridícula. E não finja que se importa com o que ele faz. Ele vai embora quando quiser, mona amour.

Rute desligou. De fato estava sendo ridícula. Mas não, de fato,não se importava. Acendeu outro cigarro e abriu uma cerveja. Ficou ali, sentada no chão, não pensando em nada, por quase uma hora. Depois começou a imaginar como seria, ver o céu de uma montanha bem alta. Devia ser lindo. Mas, se era, não fazia diferença. Talvez, quando chegasse lá só importasse o abismo à frente. É lá que um demônio deveria viver, no abismo. Ela achou que riria com esse pensamento. Mas não riu. Que vaidade se comparar à um demônio. Sentiu um desprezo tão grande e quis chorar. Então o telefone tocou.

- Alô.

- Por quê não sai um pouco de casa?

- Por que você não volta pra casa?

- Lúcia precisava conversar.

- Não. Ela precisava transar com alguém.

- Talvez eu transe com ela.

- Que seja, Edgar. Mas volte pra casa.

A risada dele foi alta o bastante pra que Rute distanciasse  o telefone do ouvido. Era um bom som a se ouvir.

- Ouça, Rute, não seja ruim com ela. Estamos todos sentindo falta de Ana. Você não está sofrendo mais, ou menos do que Lúcia.

Rute desligou. É claro que estava. Acendeu outro cigarro e se deitou na varanda, encarando o teto enquanto fumava. O gato preto que Edgar havia lhe dado se enroscou entre as suas pernas  e ficou ali. Ela o observou pegar no sono rapidamente, e viu sua respiração diminuir o ritmo. Quase uma exercício de paz. Naquele momento nada mais importava. E ela desabou no mais profundo dos desesperos, procurando algo no que se segurar. Chorou, expulsando de si os demônios. Chamou por Ana mil vezes, até que sua voz não passava de um som vago no vento, rasgando a monotonia do tempo. Era disso que precisava: vazar. E, e x t r a v a z. Lavar de um todo a dor que ali se deixou. Se sentou, e se obrigou a aceitar que Ana não voltaria, que não se podia mais viver do avesso. Ela ainda estava viva, e precisava acreditar nisso. Lavou o rosto devagar, pressionou a toalha sobre ele sem esfregar, e se encarou no espelho. Ela era mesmo bonita, como diziam. Mas haviam marcas de infelicidade por toda parte. Isso precisava acabar. E acabaria.



Já estava mesmo na hora de se recompor.

sábado, 16 de novembro de 2013

Rute




(...)

Da ponta do cigarro um filete de fumaça fugia rumo ao desconhecido. Ela encarava algo pela janela.Talvez fosse alguém,talvez fosse o tempo, talvez não fosse nada. O café estava sobre a mesa, flertando como uma mulher apaixonada. Bowie sussurrava que o amor estava perdido - " You refuse to talk but you think like mad ...". E ele tinha razão.

Não havia mais o que procurar na geladeira. Não havia cartas na caixa de correio, tão pouco vontade de que houvesse. Rute estava ali, padecendo. Procurando um bom motivo pra continuar com essa loucura. Viver. E nem sequer encontrava motivos, que dirá, bons motivos. Um envólucro tomou conta dos planos, e pretérito. O relógio parecia amaldiçoar cada instante que antecedia sua respiração. Mas ali estava ela, viva. E satisfeita com essa ideia. Entre uma tragada e outra o mundo girava sem importância. Como se a morte não fosse uma amiga que visita sem prévio aviso. Seria bem vinda quando viesse. E mesmo sob a falta de motivos que fizessem aquelas barulhentas batidas cardíacas serem menos desprezíveis, ela ainda estava ali. Então já passadas algumas horas entre cigarros, flertes pela janela, cafés requentados, o som de toques na porta trouxe a realidade de volta como um tapa no rosto.

- Ah, aí está você. Pensei que estivesse morta. - Não seria má ideia. Mas até mesmo ele sabia que Rute era egoísta demais para morrer. Isso era entregar-se. Algo que ela desprezava, mais que a si mesma.

- Você não tem nada melhor pra fazer,Edgar? Está um dia bonito.- Ela deu as costas para ele enquanto caminhava de volta à cozinha

- Senti sua falta. Ana se foi. Preciso de um lugar pra ficar. E você me ama. - E amava mesmo. Mas era o amor sem posse, sem necessidade, sem vontade, quase sem vida, amor de quem anseia por cura.

- Ela se foi ... Nós já sabíamos que isso iria acontecer, querido. Eu sinto muito.

E sentia. Mais café foi feito. E mais cigarros foram comprados. No rádio alguém sussurrava algo sobre um outro amor perdido. Talvez o amor fosse só isso, uma história cantada. Uma vítima querida, cheia de graça, que sempre morre no final, do jeito mais bonito.

- Você disse que iria parar de fumar - disse enquanto a observava. E Rute parecia flutuar com aquele vestido florido bem apertado na cintura,que dava um ar mais aconchegante à sua vida do que realmente era. De longe se veria sua indiferença fingida. Era um belo vestido,pensou Edgar.

Ela o olhou cinicamente terna. Algo no seu rosto pareceu ser uma ameaça de sorriso. Daqueles bem tristes, e perversos. Rute se levantou, colocou a xícara sobre a mesa. Tragou. Apagou o cigarro. Aproximou seu rosto do dele, frente a frente. E soltou a fumaça, bem devagar, como quem soprava a vida.

- Pronto, querido, parei. - ia sorrir, mas não sorriu. Se viu dentro dos olhos de Edgar, e não havia nada ali de que se orgulhar. Ele era assim, o espelho que refletia a podridão dentro dela.

Edgar a abraçou. E como um punhal,  a matou. Porque ela morria toda vez que lhe lhe dava amor.



                                                                             Elisama Oliveira  em, "Eu quis dizer,amor".


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Carta Pra Ela


Ana,

Que a gente faz quando o tempo leva uma vida toda pra chegar? Este tempo que é de chuva, que me prometeu. Não há nada a se fazer. E tu tens me dado tão poucos minutos no telefone, Ana. Tenho ficado perdido nessa cidade com nome de santo. E só o nome. Mas todos aqui parecem estar sempre chorando. Todos são tão sós, mesmo em mesas de bares cheias de almas. Te mando uma foto depois, criança. Aqui é sujo como em nenhum lugar. E nossos caminhos parecem sempre tortos. Eu me sinto triste só de olhar os outros sorrisos. Porque os sorrisos estão sangrando.
De um jeito sóbrio nascem os dias. Sob escombros de uma guerra perdida. Talvez não haja mesmo com o que se perturbar. Mas tudo perturba. Tudo parece trair o escuro. Tudo é corrompido. E tudo, ao fim do ciclo, parte.
Preciso ir embora, criança. Mas antes devo te dizer que as chaves não estarão debaixo do tapete dessa vez.
É tempo de seca. E eu sinto que mais ao sul o inverno chegou mais sereno. Talvez eu vá para lá. Te encontro na estrada, quem sabe..
Mas, sabe criança, em seu devido tempo, tudo renasce. Assim, não sucessivamente. Tudo. Ao tempo que lhe faz mais bonito.

Carregando a saudade no colo,
Edgar.

sábado, 11 de maio de 2013


Um delírio

  Em um desses mil tesouros perdidos estão guardadas todas aquelas cartas de quem não soube não ter amor.
  Foi de longe que avistei,num cantinho, uma dádiva que me recusei a cumprimentar. Olhei, sorri silenciosa. Cobicei por três segundos até que o som da avenida voltou feito um golpe. Eu não tinha tempo pra aquilo.
  É apenas um efeito dessa guerra em que me encontro. Me impondo limites, me dizendo o que não fazer, ser, estar.  Apesar das mãos tão sóbrias, sinto como se cada flor que eu toco adoecesse.
  Oz está em ruínas, e nós somos os culpados pelas estradas encharcadas de cravos despenteados. Um breve declínio. Quatro anos e a mesma doença. Essa que nos obriga a atropelar os dias.
  Tenho envelhecido três quartos de tempo à cada colheita. Isso, à muito, não me traz orgulho.

  Quero emprestado teus defeitos, tuas dores, desentendimentos que eu entendo, só pra ter certeza de que estou indo na direção errada.
  Construí uma casa com muros tão altos que me esqueci do quanto odeio estar cercada. Um casa, que era nossa, e toda nossa no jeito de existir. Existia por necessidade. A mesma que eu sinto pela vida. A mesma que a vida sente por você.
  Me traz de volta meus delírios, me dá no fim da tarde aquela ilusão, bem docinha. Me engana de novo, se é assim que chamam a eternidade.Volta, criança. Porque eu não quero ser adulto. Não quero ter resposta pra tudo. Não quero isto que estou querendo. Não querer:nada.



Elisama Oliveira

terça-feira, 30 de abril de 2013

Colápso


Bem debaixo do nosso nariz...
Foi dessa forma que o tempo veio e levou o que tínhamos de mais sagrado.
Foi dessa forma que a esperança foi ceifada.

Não sei bem o que dizer sobre o Edgar, alias, ele nunca se dá ao que dizer. Podia jurar que chorava enquanto ouvia uma musica na rádio, mas não. Era só o mesmo momento de sempre. Era triste.
Nunca o vi lamentar sobre o trem lotado, sobre a falta de educação das pessoa, sobre o governo, sobre crises. Não reclamava da economia, não comentava futebol, nem sequer falava de ciência. Mesmo que a vida o dominasse de êxtase. Acredito que não se deixava julgar absolutamente nada. Só observava. Porque amava observar, amava a vida, amava se deixar viver..

"Despedir-se deveria ser proibido". Disse-me uma vez em meio à uma caminhada que fazíamos. E disse sem sentimentalismo, sem tristeza. Disse quase deixando transparecer uma certa graça. Mas não deixou. Só disse. E eu segurei suas palavras por uns instantes. Cinismo. Esse era o tema da minha resposta:

- Mas as pessoas ainda fariam se lhes fosse proibido, Edgar. - Suspirei leve depois de responder. Sangrei cada segundo que antecedeu sua réplica.

- Fazem, não é? - ele riu desapontado - mas e se tivessem como pena devolver tudo o que nos levam quando se vão? E se fossem obrigadas a nos devolver aqueles pedaços que nos tiram? E se nem os levassem...

Desabou, aprisionado nesse momento. Chorava feito criança ao meu lado. Soluçava uma dor que eu entendia bem e da qual eu também era escrava. Era saudade. A saudade  é o preço que se paga pelos laços, sejam eles da cor que forem, do tamanho ou tecido que forem, custam tão caro. Nunca se pode dizer o quanto vão durar, as vezes duram muito, as vezes não. Daí partem. E nós somos partidos. Ali o amor se quebrou em mil pedaços antes de perfurar os sonhos do meu amigo. Naquele dia o céu era de um azul preguiçoso. Quase inverno. Mas o frio vinha mesmo  dos dedos de Edgar cravados no chão enquanto deixava vazar a falta. Infelizmente, minha vontade não era abraçá-lo, nem de tentar deixá-lo melhor. Eu o olhava, quase que religiosamente, cada músculo se comprimindo, cada lágrima que o inundava, cada sonho que o abandonava voando. Eu sentia o calor do seu corpo aumentar e só podia imaginar qual teria sido o tamanho do corte. Não importa, as feridas são sempre as mesmas. E a minha ainda estava aberta, respirando minha essência como um castigo por ter deixado aquela doença me entorpecer. E deixei. Assim como Edgar também havia deixado. Então ele precisava ser  punido. Precisava de cada instante daquele amargo. Precisava sentir o peito apertar até que gritasse com o Infinito lhe suplicando uma resposta. Todos precisam. Nós que caminhamos descalços na rua, que bebemos de cálices cheios de clichês e promessas, nós que buscamos essas flores envenenadas.

Cessou. Sentou-se. Me olhou como quem pede perdão. Eu o olhei recusando. Éramos parte de um ciclo rompido. Não havia com o que se surpreender. Ninguém sabe onde vai chegar quando pula de um abismo. E em todo aquele teatro montado à nossa volta só devíamos nos preocupar em sermos os melhores atores da temporada .Que cantem os pássaros e que desapareçam as flores. Fadados a não sentir nada. Mas não era isso que Edgar queria para si, e implorava pra que eu seguisse os mesmos caminhos.

- Você não pode ser abrigo da dor,não pode deixá-la aí dentro e ignorá-la - Disse-me outro dia, enquanto tomávamos café. Eu estava flertando pela janela com o mundo quando ele derramou essas palavras no meu vestido. Estavam mais quentes que o café. Virei o olhar para encará-lo, pasma.Lá estava ele, sereno, e imponente. Por que ele disse aquilo? Bom, isso eu já sabia. Se há algo que eu nunca fazia era dizer do que se tratavam as minhas preocupações.Mas é claro,Edgar não precisava nem preguntar. Não sei como ele fazia isto,mas eu podia jurar que ele ficava bisbilhotando na minha cabeça quando eu não estava olhando.


Ele tinha razão. E eu tinha uma blindagem fajuta em volta do peito. A verdade é que eu invento desculpas para não deixar que se vá aquele pensamento ridículo. Sem esperança, sem sonho, sem vontade.Mas como uma hospedeira morta, um prato cheio de arrogância que abrigava aquele pensamento. Eu o prendia entre uma tragada e outra. E me recusava a deixar que partisse. Mas Edgar tinha a razão.


Segurei a fumaça, quis rebater. Mas não o fiz. Soltei a fumaça para cima, soltei meus pedidos com ela. Que cada desejo tomasse um rumo diferente, assim como fizeram minhas partidas. Que voltassem feito a andorinha, trazendo a esperança. Que a esperança trouxesse meu Desatino. Meu pensamento ridículo. Se havia ainda um resto insignificante de fé sobre a minha alma, era toda direcionada à aqueles desejos. É mais difícil se acostumar com a falta quando o que falta fica brincando na sua mente e penteando o seu cabelo antes de dormir. É mais difícil deixar que se vá quando tudo o que falta está bem ao seu lado tramando a sua loucura. Nós dois conhecemos a falta de jeitos diferentes, mas no mesmo trajeto. Lutamos por anjos diferentes, mas com as mesmas armas. Ganhamos no que se diz respeito à liberdade de espírito. O problema, é que essa liberdade nos custou pelo menos três quartos de vida.



Mas eu ainda tinha Edgar, e isso me dava a impressão de ainda ter salvação. Não que acreditasse nisso, mas não o fazia desfeita também. Ele era minha única vontade de permanecer em cena, minha página favorita. E sei que me escreveria letra à letra até que fosse reconstruída. Foi assim que a vida decidiu me curar...




quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pelas Barbas do Profeta!

Sincronize a vida no auge da insanidade,alheio às intrigas de mártires sem salvação.Descanse.Envia ao mar teu mais temido anseio,tuas direções infinitas,teu destino improvisado.Porque até no rumo tens dúvida da existência que representas.Espere.Busca na palavra-poesia-canto a maneira mais tênue de terminar o dia.Delire.Brinca de ser manso,atende aos montes de algodão que se fazem nos sonhos empoeirados de pouca fé.Eternize.Se desfaça dos poços imundos que tua mocidade criou no teu âmago.Exista.E voa,de ano em ano,até o mais perdido andar do mundo.Mesmo nulo à ti,me encanto,e me desespero em tuas quedas.Fica.Que aqui não falta o que falta em mim.

Elisama Olivera

domingo, 23 de setembro de 2012

Eu preciso de um dia de fuga.

As pastagens são menos indelicadas quando as vejo de perto.Cercadas de cóleras e más lembranças.
                  Pretérito,Imperfeito.
Voluntários são os ventos que vem do sul em uma dança síncrona pra me fazer entrar em transe.Menos dois amigos,vinte e duas perdas.Dois anos.Não há invólucro capaz de guardá-los do mal tempo,e da velha história de sempre.Aquela em que todos partem.

Tenho sonhos desesperados quando não chove.Me envolvi em uma canção de exílio muito maior do que pensei que seria,uma rua sem saída.E não me vejo num só dia além do seu.Querido amigo imaginário,portador de dúvidas e esperanças.Quem não teve anseio de temer,o escuro.A espada,o corte profundo.

"Vem,anjo de braços abertos,comiserar-se dos pecados que eu colhi.E sangrar cada pedaço de saudade que há em mim,em ingenuidade e desgraça.Estou no ponto menos fraco d'onde parti."



                                                                                                                                    Elisama Oliveira

domingo, 12 de agosto de 2012

sábado, 11 de agosto de 2012

Enlouquecendo no que se diz,respeito.

      — Você caminha rápido demais.Não espera o tempo.

                                  t e m p o *


Vasto.Nulo.Grande.Imundo.Em controversa,imaculado.O tempo,a vida,a mão,o cabelo,o laço,o perdido.Desencontrados.E em tudo isso sou coadjuvante.Queria ter mais prática,mais maleabilidade com as sílabas que te formam.E em todas elas sou desgastada.Como as calçadas do centro.Meu bem.Não sou tão desequilibrada como disse que seria.Perdão.Sou dessas-que-sempre-se-perdem-n0-que-diz e depois partem para o mais fundo dos oceanos jurando encontrar resposta.Não encontro.Juro que nunca tive menos que dois sonhos na carteira,mas eu tenho essa mania de enfeitá-los.Daí sempre parecem muitos.Mas são só dois.E nos dois eu me enrolo e desenrolo.Vou realizá-los quando todas as repostas forem respondidas.E são muitas meu bem,muitas.Por isso as muitas borboletas na minha parede imaginária.São pra descontrair.Uma de cada cor.Uma de cada nome.Sete de cada sonho.Quatorze cores,quatorze nomes,dois sonhos.Enlouqueci.



Eu preciso esperar,é o que dizem.Certos,e como estão.Me arrependo de ser tão teimosa quando os peço silencio.São tantas recaídas.Tantos pulos no escuro.Dos mais altos andares da desobediência.Eu quero um mundo que ainda não existe.Uma vida que ainda é distante.É por paixão sim,mas por que ainda não estou satisfeita? Não é paixão então.Digo que é! E repito que é! Porém,ainda a questão me embala.Eu estou crescendo rápido demais,de dentro pra fora.E isso não é bom.

Não é verdade que não rio mais.Sou mais que esse barulho nas ruas multiplicado por quatrocentos.Quieta.Mesmo escrevendo a vida,mesmo pintando insetos esquisitos.Não me satisfaço.E peço perdão.Pela birra,a incoerência.Quero ser criança.E consigo.Mas desisto.E no todo eu não sou um terço do que quero.Daí repetem:
      — Você caminha rápido demais.Não espera o tempo.


E como em todas as vezes,me calo.Certos estão.






Elisama Oliveira.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Quando Ana nasceu,

Quando Ana nasceu,o céu tinha um sol à mais.Havia um cheiro de tulipa em tudo que era seu.É,tulipa.Por que? Não sei.Ana gosta de tulipas.Bom,quando ela nasceu o mundo não parou,não houveram mobilizações,nenhuma visita importante.Era só uma quarta-feira de julho,da qual ninguém irá se lembrar.Eu nunca gostei de quarta-feiras.Sua passagem pela vida,mesmo curta,marcou mais que aqueles beliscões que ela me dava quando eu dizia besteira,e riamos,riamos até ter que limpar os olhos com as mãos sujas.Era extasiante aquela sensação de alívio.Quando ela enrolava os dedos no cabelo enquanto me dizia um segredo.Nosso,e todo nosso aquele jeito de viver.

Ana me ensinou muitas coisas antes de morrer.Me contou sobre seus botões malcriados,sobre suas obras incompletas e seus desatinos infelizes.E eu nunca deixei de me perguntar de onde ela tirava tantos risos.Tanto gozo pela vida.Tanto abraço.Tanto beijo.Tanto amor,tanto brilho.Por Deus!Onde ela enterrou tudo isso? E não foi consigo,sei bem.Eu a observava,e espionava seus atos até os mais simples gestos.Tão puros,tão inquestionáveis.E não me perdoo por tê-la deixado se macular tanto.


- Ana,sinto sua falta.As coisas têm sido difíceis,tudo.Não consigo me levantar um único dia sem me questionar tua partida.Eu sei,não dava mais.E eles não te perdoaram,eles foram tão estúpidos em te rabiscar daquele jeito.Mas,volta.Me abraça,diz que eu consigo,que não existe inferno,que não há mal com que se preocupar.Diz que o céu é da cor que eu quiser.Que as flores falam um idioma que só você entende.Decifra minhas cicatrizes e sonhos como tu fazias.Eu ainda tenho aquele passarinho machucado que tu desenhou pra mim,e me pediu pra cuidar dele,lembra? Eu ainda tenho.Mas,ele vai morrer Ana.Porque ele precisa de você assim como eu preciso de um sentido pra viver.

Não houve resposta.É sempre assim,são três toques e quase no quarto é que o telefone é atendido.Nunca dizem alô.E eu falo,canto,clamo,às vezes até choro,conto uma piada - quase sempre posso imaginar um lábio se esticando num sorriso breve do outro lado da linha - e depois agradeço,desligo.Ninguém nunca responde.
Sabe,eu sinto falta de estar viva às vezes.A verdade é que quando ela se foi levou consigo um pedaço de mim bem maior do que esperava.Quase um quarto de alma e uns dois terços do meu espírito!

Um primórdio,e duas almas se entrelaçaram naquele meio termo.Nos nossos cantos de reabilitação e estórias de   grandes conquistas,ainda éramos tão mortais quanto qualquer um.Eu penso que possa haver um outro pensamento desencontrado no final de alguma montanha no caminho para Minas.Nós enlouquecemos aos pouquinhos não é mesmo,Ana?

As quatro horas já não sou contente como era às duas.E juro que não é birra,que não é aquela fase de ser triste pela qual as pessoas insistem em viver.É só perder a essência.Como se eu soubesse que depois das dezesseis horas não é mais tão divertido estar de pé.Porém,às dezenove estou contente de novo.Depois das dezenove eu sou um rosto estranho passeando pelo centro com anjos quebrados.Meus anjos quebrados.Enfim,digo que depois das dezenove horas sou contente de novo pois há algo com o que se alegrar.Sim,essa alegria menina vem do ato de não  e-s-t-a-r  sozinho,de ter paz ao mergulhar naquele sorriso amarelo.A vida continua,como um relógio quebrado que ninguém quer consertar.Daquele mesmo jeitinho que você esperava que fosse ser pra mim.Eu sinto sua falta Ana,e essa falta não me vai deixar nunca.


Elisama Oliveira

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Lúcia

Benditas as voltas que damos nos arredores do mundo.E estúpidos os olhares de desejo dados aos velhos pecados.Tínhamos todos os caminhos bonitos,e só o errado nos fez certos.Daí que brincamos menos de sermos felizes e passamos a ter mais responsabilidade com os passarinhos que não cantavam na nossa frente.Crescemos Lúcia,e você envelheceu bem menos do que eu.Ficou bonita,e menina como ninguém jamais nascerá.Tudo o que enterramos voltou à tona num fá sustenido.E você não volta,Lúcia.

Preciso de um barulho mais nosso.De uma vida só minha,de mim.Estou inerte na vontade de ser mais ampla.Abrigada naquele aperto que se fez no seu abraço.Me alimentando de poucas palavras cuspidas do rádio,tomando chuva,bebendo estrelas,voando ao norte.


- Boa noite,Lúcia.Que houve com a porta dessa vez?
- Boa noite,Doutor.

O Narciso morrera de amor por si mesmo.Lúcia morrera pela falta desse amor.A loucura era como sua canção esquecida e empoeirada.Feita de silencio,em pó.

- Lúcia,por favor.O que houve com a porta dessa vez? A enfermeira me disse que você desenhou uma flor,com seu sangue.Já não lhe disse que é perigoso que você se corte?
- Ela está louca,Doutor.
- A enfermeira?
- Não.A porta.

O médico suspirou fundo como se tivesse trocado de alma naquele instante.Fechou os olhos,e os abriu,os fixou na menina magra,quase pálida e de cabelos embaraçados.Ela segurava umas das mãos que sangravam,e  olhava para os pingos de sangue que caíam no piso braco,seu pensamento era frio.

- O que a porta,fez à você ?
- Ela cantou que não haveria hoje depois de amanhã.Eternizou todos as palavras de Assis num veneno que ninguém consegue enxergar Doutor,só eu.Eu gritava para que ela parasse,mas ela ria de mim.E ria com uma crueldade... eu tive medo.Daí lembrei do que o Doutor me disse da outra vez,que sempre que eu tivesse medo deveria pensar no que eu mais gostava.Eu gosto muito de flores doutor.

E seu sangue pingava,sua vida pingava junto.Lúcia enlouqueceu no mesmo dia que eu.E nossa loucura nos fez entender que éramos mais sãs do que qualquer um.O homem se levantou andou até a cadeira na qual  Lúcia estava,agachou ao seu lado e levantou seu rosto com uma das mãos:

- Ouça Lúcia,toda vez que a porta lhe ofender feche os olhos e pense em todas as flores que existem.Tampe os ouvidos,e peça para que me chamem.Tudo bem?
- T-u-d-o-b-e-m.
- Bom.Agora,vou pedir à Marta que cuide desse sangramento.Promete que vai ser boa com ela?
Houve um suspiro,uma lágrima pesada e involuntária.Um desabafo mudo,um segredo silencioso.O olhar baixou,e cantou:
- P-r-o-m-e-t-o.




                                                                                           Elisama Oliveira

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O bar das Flores perdidas

Dançaram.E dançaram até o que o ultimo músico se fosse e levasse consigo a vontade de viver.Inquietas e cheias de involuntariedade.Mortas,de alma,de peito,de luz.E não havia cor de que se orgulhar,não havia peste que não fosse desejada sobre si.Foi um inverno longo aquele.

Sabe,dizem que quando a gente cresce o mundo é todo simples.São poucas as coisas que nos cativam,poucos os muros que nos chama a atenção.Mas,creio que "crescer" está além do nosso entendimento.É quando a liberdade se torna um âmago,algo tão seu que ninguém possa ver.Algo tão simples que se torne complexo ao olho humano.É quando você deixa de estar só pra estar contigo.Crescer,que é tão inalcançável quanto um beijo de borboleta.Quando nos perdemos.E perder a si é como não ver o dia de amanhã.É como ver,e não enxergar.O desatino de existir,é crescer.

E as Flores foram longe,e riram e cantaram.Não pararam até que a ultima delas não suportasse mais estar em pé.Loucas,pobres e embriagadas.Toda a dor e tristeza embelezadas por conta de um Beija-Flor que não lhes foi fiel.Foi buscar amor n'outra vida.


Perdoem-me crianças,tenho estado cheia de nós ultimamente.Tenho me encontrado em braços de ferro e mentes fechadas.Tenho sentido um medo de perda.Sou eu,essas flores perdidas.Somos nós.Desencontrados.Parece um labirinto essa busca por satisfação,onde eu procuro um pouco menos de compreensão.Não entenda,cresça e não entenda quando crescer.Só viva.Que aqui não há mais espaço para pensamentos sóbrios.Tenho tentado ser mais convidativa,mas é que meus ombros são pesados demais.Minto,não são os ombros,são as histórias e anjos que eu tenho tentado curar sem muita expectativa e nenhum resultado.Então,perdoem-me crianças,tô indo.Onde,só as flores sabem.E lá,eu sei,não há vento que não me cante: Liberdade!




Elisama Oliveira